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05/10/2009 - Clipping Cultural

FRONTEIRA DA HISTÓRIA - Casarão abriga memória de Jango


Tadeu Vilani
Matéria de Moisés Mendes

Quase 33 anos depois da morte de ex-presidente, São Borja inaugura museu em residência que abrigou a família Goulart

Quando guri, Dirceu Dornelles ouvia uma advertência de Vicentina, a dona Tinoca, sempre que entrava na casa da família Goulart, no centro de São Borja, à procura de Jango:

– Não entra com os pé sujos – pedia a mãe de João Goulart.

Ontem, aos 80 anos, Dornelles vestiu terno e gravata, limpou os pés e entrou de novo no casarão, agora como guardião da memória do ex-presidente. É um dos últimos amigos vivos de Jango. É também o presidente de honra da Associação de Amigos que irá administrar o acervo do Memorial Casa João Goulart.

O memorial inaugurado ontem ainda é singelo, quase precário. Mas Dornelles estava feliz passeando pelas salas do casarão com João Vicente, um dos filhos de Jango, que visitava o museu pela primeira vez. Dornelles é tabelião. Aproximou-se de Jango, ainda adolescente, porque eram vizinhos. Jango, comprador de gado e terras, passou a fazer fortuna, com apenas 25 anos. Donelles ganhou a confiança do moço e, já adulto, assumiu o registro legal de todas as suas propriedades. Virou amigo de Jango, visitou-o em Brasília como presidente e depois como exilado na Fazenda El Milagro, em Maldonado, no Uruguai.

Os objetos expostos no memorial têm um pouco do Jango presidente, deposto pelo golpe militar de 1964 e morto no exílio em 1976. Dornelles mostra o cartão de visita do presidente, fotografias, recortes de jornal. Mas o que revela Jango é mesmo seu acervo de são-borjense, de gaúcho. São as memórias de suas raízes. As botas, as bombachas, objetos de uso pessoal – que incluem uma bomba de chimarrão, um cinzeiro de madeira marcado pelas brasas, uma máquina de escrever Remington e um mataborrão.

Há marcas da infância nas paredes. Como as figuras decorativas que a restauração fez emergir de camadas de tinta. Como o oratório de dona Tinoca, com 34 imagens de Cristo e de Nossa Senhora. Donelles percorre as salas, com João Vicente, e vai contando que ainda resta recuperar muita coisa. Mostra um livro com dedicatória do presidente argentino Juan Domingo Perón. Três malas de couro, uma máquina fotográfica Luxa 66. Um pincel de creme de barba, um coldre de revólver sem a arma, cópias de escrituras lavradas pelo próprio Dornelles e bilhetes, bilhetes, bilhetes.

– Ele escrevia bilhetes em qualquer papel, até em papel de carteira de cigarros.

Jango recomendava, nos bilhetes, coisas banais, como o pagamentos pela compra de bois, sempre com uma letra graúda. Dornelles admira o acervo como quem, quando guri, enfiava o olhar pelas frestas da porta do quarto de Jango, nos fundos da casa, para saber o que havia lá dentro. Via apenas uma cama e um espelho grande. Hoje, tenta imaginar quanto das coisas de Jango estão por aí, invisíveis, como muitos objetos que foram resgatados por informações de moradores de São Borja. Estavam com pessoas que pretendiam ficar até com bombachas de Jango.

Em meio aos visitantes, amigos revisitaram juventude

Christopher Goulart, neto do ex-presidente e presidente da associação de amigos, sai à procura de pistas, como as que o levaram a duas malas com roupas do avô. Também recuperou mais de 50 livros de Direito usados por Jango quando estudante da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde se formou em 1939. João Vicente, presidente do Instituto João Goulart, prometeu doar cartas recebidas pelo pai.

Ontem, a memória mais presente, no dia da inauguração, era a que circulava por ali. Luthero Fagundes, 84 anos, outro amigo de Jango, lembrava o período sombrio do exílio, quando ia ao Uruguai para contatos com o presidente asilado. Era o contador de Jango. Numa das viagens, em 1968, foi preso em Livramento e ficou 20 dias sob interrogratório. Também foi atraída pela inauguração a Princesa Sofia, como é conhecida a dona de casa nascida na Palestina que todos os anos desfila carregando fotografias de Jango no 7 de Setembro. Wafieh Fakqusch Shalabi, seu nome, estava com as duas filhas, Najah e Fátima, com um poster gigantesco com fotos de Jango.

O casarão, construído em 1927, oito anos depois do nascimento de Jango no interior do município – tombado pelo Estado e restaurado com ajuda da iniciativa privada – foi aberto depois de discursos de representantes dos governos estadual e municipal e deputados, na Avenida Presidente Vargas. Maria Teresa, a viúva de Jango, preferiu não vir do Rio, onde mora, para o evento. Quase todos – e principalmente Christopher e João Vicente – atacaram o golpe militar. Christopher disse:

– Que se recupere a imagem e a memória de João Goulart e se desmascare tantas mentiras ditas sobre um homem que não podia nem se defender.

Dornelles ouvia atento. Assumiu o compromisso de fazer a sua parte:

– Jango deve ser lembrado como um homem cordial, amigo e de grande generosidade.

FONTE: Zero Hora, p.10 - 02/10/2009.



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