Arquivo Público do Rio Grande do Sul reúne mais de 900 mil registros de compra e venda de escravos no EstadoFausta, escrava de origem africana com 48 anos de idade, foi vendida em 16 de março de 1858 por três fazendeiros para um senhor de escravos.
A negociação foi acertada em Porto Alegre por 858 réis.
Era assim, como animais, que viviam os escravos negros trazidos ao Brasil, entre os séculos 18 e 19. Foram 3,5 milhões, conforme a historiografia oficial, a maioria entre 1800 e 1850, período no qual o país foi o maior centro escravista do mundo.
Por meio de documentos como esse contrato de compra e venda de um ser humano, o Arquivo Público do Rio Grande do Sul começa a organizar a história oficial da escravidão em território gaúcho - baseada em mais de 1 milhão de documentos arquivados em cartórios e varas judiciais. A escritura pública mais antiga é a de um escravo comprado em 1763.
Foi naquele 13 de maio, há exatos 120 anos, que a princesa Isabel, filha do imperador Pedro II, decidiu libertar os escravos brasileiros. A data não é celebrada pelos movimentos negros, que preferem o 20 de novembro, em homenagem à morte do líder antiescravista Zumbi dos Palmares.
É dos documentos acumulados no período entre as lutas de Zumbi e o decreto da princesa que trata o projeto Documentos da Escravidão no RS. A primeira parte já virou livro e encontrou 18 mil cartas de alforria, que concediam libertação ao escravo. Contou com apoio do governo espanhol, que contribuiu com 18 mil euros.
A segunda parte foi lançada em abril e pretende catalogar 900 mil registros de compra e venda de escravos. A organização terá apoio da Petrobras, que forneceu R$ 129 mil.
Pesquisadores e acadêmicos de História analisam cada um destes documentos, dia após dia, armazenados nos anexos do Arquivo Público, na Capital. O material também deve virar livro.
O projeto deve contar ainda com uma terceira etapa, para a qual ainda não há verba, concentrada em inventários, testamentos e processos criminais. Interessados em colaborar podem entrar em contato pelo (51) 3224-3614.
Para o seu filho ler
Um dos mais violentos costumes de algumas pessoas é escravizar as outras, para que façam os trabalhos que ninguém quer fazer, sem ganhar dinheiro. Pois o Brasil já foi o país com mais escravos.
No século 19, cerca de 3,5 milhões de negros africanos foram trazidos a terras brasileiras para trabalhar em plantações ou mesmo nas cidades. Um em cada 10 morria na viagem ou logo ao chegar, em função de doenças e das más condições dos navios que os transportavam. Muitos desses africanos vieram para o Rio Grande do Sul.
O Arquivo Público do Rio Grande do Sul - uma espécie de grande biblioteca - lançou um projeto que pretende mostrar como os escravos eram tratados como mercadoria. Eles eram inclusive deixados como herança para os filhos dos brancos. Foi num 13 de maio como hoje, só que em 1888, que a escravidão deixou oficialmente de existir no Brasil, embora continue, disfarçada, em algumas fazendas.
FONTE: Zero Hora, p. 32 / 13 de maio de 2008