Impossível circular pelo Centro sem admirar a harmonia entre o moderno e o antigo, como no Paço Municipal
Com estilo arquitetônico eclético, Porto Alegre comemora seus 236 anos e tem uma rica história que pode ser contada de diferentes formas, não só para o turista, mas para seus moradores. Uma delas é por meio do Patrimônio Histórico, onde o projeto Monumenta tem papel importante na busca de origens. A meta, destaca a coordenadora do Projeto, arquiteta Briane Bicca, 'é contribuir para que a população mude seu olhar ao centro histórico e tenha uma relação afetiva com ele'.
Integrantes do Projeto Monumenta, ruas, praças e parques que circundam prédios históricos revelam os caminhos trilhados ao longo desses anos. O projeto está orçado em R$ 16,8 milhões. A importância de se revelar a origem e a história do patrimônio histórico e cultural de uma cidade pode ser sintetizado no comentário da coordenadora do Monumenta: 'Uma pessoa pode tropeçar diariamente num marco importante da vida da cidade e jamais saber alguma coisa sobre ele. Havendo informação, o patrimônio se concretiza nas edificações, nos lugares, que passam a ter um significado, se consolidando na memória coletiva'.
Briane destaca que nessa linha o Monumenta desenvolve diferentes ações. Aos poucos mostra que Porto Alegre é um centro histórico, que merece destaque assim como o de Salvador e Ouro Preto, mesmo não sendo comparáveis. A coordenadora cita que cada cidade, mesmo as mais modernas, está lastreada em seus elementos históricos, que gradativamente se consolidam como patrimônio histórico.
Visando valorizar o centro histórico aos olhos de sua população, o projeto Monumenta direciona suas intervenções aos espaços distribuídos numa área de 24,5 hectares. A área longitudinal começa no Pórtico do Cais Mauá, cruza a Praça da Alfândega e alcança a Praça da Matriz. No eixo transversal ao lago Guaíba, na área formada pela Rua dos Andradas e quarteirões adjacentes. Nesse espaço estão importantes monumentos, prédios públicos e moradias antigas. São cerca de 130 imóveis particulares de valor cultural ou arquitetônico, inventariados pelo Patrimônio Artístico, Histórico e Cultural (Epach) da Secretaria Municipal de Cultura.
Laçador: há um ano de casa nova
O Monumento ao Laçador, que desde 1992 é o símbolo oficial de Porto Alegre por escolha da população e de lei da Câmara Municipal, é também o Cartão-Postal do Rio Grande do Sul. A estátua fundida em bronze, que este ano completa 50 anos, é uma obra do escultor Antônio Caringi (falecido em 1981), e teve como modelo o folclorista João Carlos Paixão Côrtes. Foi inaugurado em 20 de setembro de 1958, pelo então governador Leonel de Moura Brizola. O monumento, com 4,45 metros de altura e 3,8 toneladas, dava as boas-vindas a quem chegava à cidade pela BR 116.
Em 31 de março do 2007, nas comemorações dos 235 anos de Porto Alegre, ganhou nova morada: o Sítio do Laçador. Com 4 mil metros quadrados, está localizado a 600 metros do antigo local. A remoção da estátua permitiu o prosseguimento das obras do viaduto Leonel Brizola, de vital importância para o sistema viário de acesso e saída da cidade.
Ao ser inaugurado, o Sítio do Laçador foi saudado pelo prefeito José Fogaça, como representante da 'síntese da nossa identidade como povo'. Localizado na Avenida dos Estados, próximo ao Aeroporto Internacional Salgado Filho, tem espaços diferenciados: a Plataforma Cívica; o mapa do Estado; placa com a letra do Hino Rio-Grandense; Chama Crioula no alto de uma coluna; o Largo dos Gaúchos, para atividades cívicas e eventos; o Recanto da Tradição, Anel Verde e estacionamento.
Passado meio século, Paixão Côrtes, que, aos 26 anos, serviu de modelo para Caringi, aos 80 anos acompanhou pessoalmente toda a transferência do Monumento e emociona-se ao lembrar que 'até o final da década de 1940, Porto Alegre estava despida de monumento ao nosso campesino'. A obra de Caringi veio suprir uma lacuna na história do Rio Grande até estão esquecida e pouco reverenciada, observa Paixão.
O folclorista cita que até a metade do século XX, para reverenciar a figura do gaúcho, o porto-alegrense tinha que recorrer ao monumento o El Gaúcho Oriental, doado pelo povo uruguaio em 1935, no centenário da Revolução Farroupilha.
UFRGS: acervo neoclássico no Centro
A aniversariante tem entre seus grandes orgulhos sediar a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), não só pela excelência do ensino, mas pelo alto patrimônio histórico da área física. O conjunto de 12 prédios de estilo neoclássico, erguidos no fim do século XIX e início do XX (11 no Campus Central e 1 no Campus Agronomia), foi construído a partir de 1898. Este acervo que integra a paisagem urbana faz parte do programa Resgate do Patrimônio Histórico da Universidade.
Por reconhecer o valor histórico e cultural de seus prédios, a universidade desenvolveu o projeto que preserva e revitaliza o conjunto arquitetônico. O trabalho de restauração foi viabilizado pelo tombamento do Patrimônio Histórico. Pioneira no país, ao lançar em 1999 o programa Resgate, a Ufrgs desde então busca apoio da própria comunidade, por meio da captação de recursos para restauração e conservação de seus prédios centenários.
Uma série de ações incentiva a doação de verbas por parte de empresas e de pessoas físicas, que podem deduzir o valor doado em até 6% do Imposto de Renda devido, amparados na Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) e emendas parlamentares. Para o reitor da Ufrgs, José Carlos Ferraz Hennemann, a preservação do conjunto arquitetônico, em estilo neoclássico, constitui-se em uma de suas importantes missões.
Para o secretário do Patrimônio Histórico da Ufrgs, Cristoph Bernasiuk, que coordena o Projeto Resgate, não existe em nenhuma cidade brasileira um conglomerado universitário com uma área de quatro hectares encravada no Centro de uma cidade com mais de uma dezena de prédios centenários.
Monumenta adota a Capital
Porto Alegre é uma das 26 cidades brasileiras que participam do Programa Monumenta do Ministério da Cultura. Lançado em Brasília em 1995, o Programa Nacional atua em cidades históricas protegidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e apoio da Unesco. O Programa tem conceito inovador e está centrado na recuperação e na preservação do patrimônio histórico com desenvolvimento econômico e social.
Agindo de forma integrada com os municípios, governos estaduais e entidades civis, o Monumenta promove obras de restauração e recuperação dos bens tombados e edificações localizadas nas áreas de projeto. O Projeto Monumenta de Porto Alegre para o período 2002-2009, está vinculado à Secretaria Municipal de Cultura. Começou no final de 2002 e a 'obra de arranque foi o Pórtico do Cais do Porto', explica a coordenadora da Unidade Executora de Projeto (UEP), Briane Bicca.
Integram o programa as obras no Palácio Piratini, Pinacoteca, Biblioteca Pública do Estado, Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Memorial do Rio Grande do Sul, Pórtico Central do Cais do Porto e Igreja Nossa Senhora das Dores. Entre os espaços públicos estão selecionadas as obras da Praça da Matriz, da Praça da Alfândega e as vias da área do projeto. Segundo Briane, no Projeto Interpretativo do Centro Histórico, o Monumenta trabalha para que nas ruas sejam colocadas placas de identificação que, além dos nomes atuais, contenham as denominações antigas dessas vias.
Patrimônio histórico
Programa Monumenta
Prédios
Palácio Piratini
Pinacoteca de Porto Alegre
Biblioteca Pública do Estado
Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa
Museu de Arte do Rio Grande do Sul
Memorial do Rio Grande do Sul
Pórtico Central do Cais do Porto
Igreja Nossa Senhora das Dores
Espaços públicos
Nos espaços públicos estão selecionadas as obras da Praça da Matriz, da Praça da Alfândega e vias da área do projeto.
Área privada
Foram listados 130 imóveis da área central. Foram concluídas três obras. Nove estão em andamento e um está com proposta em fase de análise. As ações do Programa Monumenta são acompanhadas e conduizadas por equipes compostas por técnicos do município ou do Estado em conjunto com o Iphan.
PROGRAMA RESGATE DA UFRGS
Castelinho
Château
Museu da Ufrgs
Escola de Engenharia
Faculdade de Agronomia
Faculdade de Direito
Faculdade de Medicina
Instituto Eletrotécnico
Fonte: Correio do Povo / 26 de março de 2008