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Geral
Inteligências
Não é raro que se diga: "É uma pessoa complicada, mas não podemos negar que seja inteligente". Também é usual a menção ao fato de que alguém não é inteligente, mas que é uma "pessoa boa".
Pensar essas coisas nos parece natural, eu mesmo já tive a pretensão de fazê-lo - por vezes, volto a ter. Mas será que é justo classificar os outros, negativa ou positivamente, com base na avaliação de algo tão difícil de aferir como a inteligência? Ou no julgamento de qualquer outro talento mental, mormente quando se nega o atributo, sabendo como os estereótipos podem tornar difícil a vida pessoal ou profissional de outrem?
Pensando-se em caso de pessoa com boa vontade e esforçada, pergunta-se: o que mais contribui para nossa evolução coletiva, um gênio egocêntrico ou alguém não tão brilhante que busque colaborar com o progresso de todos, ouvindo os outros não com condescendência ou falsa atenção, mas com a intenção de ajudar na busca do bem comum ou do próprio interlocutor?
A pesar de isto parecer óbvio, Kant, urna das mais brilhantes mentes da filosofia, deu-se ao trabalho de dizer, em sua "Critica da Razão Razão Prática", que os talentos da mente, em si mesmos, não são bons ou ruins. E disse mais: é a boa vontade que torna alguém merecedor de felicidade que a visão de um ser que não tenha uma única característica de pura boa vontade nunca poderá dar prazer a um espertador imparcial e racional.
Tentando formular um conceito - possivelmente de forma simplista -, vejo a inteligência como um talento mental que permite àquele que o tem, melhor análise de certas informações que recebe, devendo-se levar em consideração que, como já não se discute, há inteligências diversas - lingüística, interpessoal, lógico-matemática etc.
Não há aí, nesta definição improvisada, qualquer indicativo moral, e nem poderia haver, seguindo o que disse Kant. É a intenção que caracteriza os atos como bons. Conseqüentemente, o que devemos esperar é que os outros tenham boa vontade e que pratiquem aquelas condutas que poderiam ver transformadas em regra universal, com isso sendo demonstrado seu valor.
E bem verdade que, não tivéssemos pessoas inteligentes na história da humanidade, talvez ainda vivêssemos em condições precárias. Afinal, foi a inteligência uma das características que nos permitiu posição de supremacia na natureza. Ademais, é plenamente compreensível que, para algumas funções, por razões práticas, sejam buscadas pessoas com inteligência diferenciada, ou que consigam ter boa compreensão de assuntos diversos.
A meritocracia, aliás, faz com que algumas posições sejam alcançadas em vista da inteligência e do conhe-cimentos, este relacionado ao esforço.
Mas, ao menos na minha visão, a inteligência não é a mais nobre das nossas características. Ocorre que, como indicado, a inteligência não se restringe àquela que permite o sucesso acadêmico, pela facilidade de absorver, reter e relacionar conhecimentos, mas também se revela pela habilidade social.
Disso surge uma variante menos sofisticada desse atributo, a esperteza, naquela conotação tipicamente brasileira, que apela a instintos mais primários e permite, basicamente, a sobreposição de uns aos outros mediante o uso de expedientes questionáveis diversos, como a manipulação de opiniões e pessoas.
Quem já não ouviu a frase "rouba, mas faz", normalmente associada a certos políticos? O mais surpreendente, contudo, é que há quem a profira admitindo preferir essas pessoas a outras, já que, pelo que entende, seriam mais espertas, podendo obter mais benefícios práticos.
Nesse contexto, pelas expectativas que a sociedade gera, pela noção corrente de que o valor é menos importante que a dialética, que ganhar poder é um fim em si mesmo, é fácil vermos o quanto a idéia de que quem mais queira se dar bem do que realmente fazer algo bom se torna atrativa.
Mesmo reconhecida, repiso, a importância que as capacidades de analisar informações, de se comunicar, de escrever, dentre outras, têm para a maior parte das atividades e funções, parece-me que uma maior valorização das pessoas que buscam realizar o bem, mesmo que não tenham mente tão sagaz, que não sejam tão perspicazes, que não tenham a suposta habilidade de saber tudo a respeito das pessoas ao primeiro contato ou à primeira reação, é medida salutar. E não é demais lembrar que, por vezes, o excesso de preocupação em mostrar sagacidade leva a uni estado de paranóia.
Deixo claro que não faço apologia aos que têm dificuldade de elaborar raciocínios, ou mesmo à ignorância - esta tendo alguns partidários, que, esquecendo-se dos méritos de quem se esforça, mais se preocupam em atacar os estudiosos do que em saber a adequação do que dizem.
Pelo contrário, acho que educação é fundamental, mas educação que mereça ser assim chamada passa pela compreensão de que todos merecem tratamento igualitário, pela valoriza do esforço e da bua-fé, que deveriam ser tão enaltecidos quanto o brilhantismo das idéias -ou a repetição de idéias decoradas.
O importante é que a inteligência, quando unida à boa vontade, em especial a uma boa vontade tão desinteressada quanto possível diante da nossa natureza e das nossas necessidades, pode permitir que sejam feitas grandes coisas em favor dos outros sem que ocorram os prejuízos colaterais normalmente relacionados à busca do sucesso pessoal a qualquer preço.
Para finalizar, saliento que, diante de brilhantes juristas, já me senti deveras limitado, mas eram notáveis o respeito e a capacidade que esses mestres tinham de se adequar à capacidade de percepção dos ouvintes sem tornar possíveis diferenças barreiras entre todos. Não por acaso, a característica que eles acabavam incentivando a adotar era a esforço de melhorar. Mesmo eventuais brincadeiras ou comentários que, usando técnicas de argumentação, ridicularizassem as idéias expostas - feitos perante o destinatário, permitindo direito de defesa quanto ao argumento -, conseguiam mostrar que o caráter educativo e democrático predominava, sem que se quisesse criar estamentos.
Tenho a crença de que, se valorizarmos todos que, com boa vontade, mostram esforço e dedicação, em qualquer atividade, ou mesmo na vida social, podem fechar-se alguns espaços para quem, achando merecer consideração mais elevada, vale-se da inteligência e da falta de escrúpulos para escarnecer, para destruir, para lucrar e para acabar com a auto-estima das pessoas, seja este último o objetivo visado ou não.
Paulo Eduardo Nunes de Avila - Promotor de Justiça
Fonte: O Sul
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