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Clipping
Patrimônio Público
Mais tinta na parede da controvérsia

Ontem, depois de a UFRGS arquivar queixa por dano ao patrimônio e elogiar grupo que fez inscrição em parede sem pedir autorização, estudantes revoltados com a decisão cobriram a pintura

Com uma lata de tinta e um pincel levados de casa, dois alunos colocaram ontem mais lenha na polêmica envolvendo uma pintura não-autorizada em um prédio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Por volta das 16h, eles cobriram a inscrição “Pra que(m) serve o teu conhecimento?”, feita em abril numa parede externa do Instituto de Letras, no Campus do Vale, em Porto Alegre.

Por considerar a inscrição um dano ao patrimônio público, o aluno Anderson Gonçalves, 35 anos, do curso de Ciências Contábeis e integrante do Movimento Estudantil Liberdade (MEL), havia entrado com processo administrativo junto à universidade.

No mês passado, a Secretaria de Assuntos Estudantis (SAE) arquivou o caso dizendo que a pintura, “antes de ser vandalismo, é um ato de extremo instigamento ao pensamento crítico, eivado de indagação filosófica que não desmerece o patrimônio”. Como argumento, a SAE disse que não havia necessidade de autorização para a primeira pintura por se tratar de um espaço historicamente usado para manifestações dos estudantes.

O estudante de Letras Hermano Talamine, 23 anos, assumiu o ato de ontem com o colega de curso Augusto da Rosa, 22 anos.

– Resolvi pintar porque a lei (que tipifica pichação e grafite não-autorizados como crime no país) não está sendo cumprida. A iniciativa foi minha. Estamos a favor da lei e da democracia – disse Talamine.

Em tom salmão, a tinta cobriu parcialmente a inscrição em cerca de 10 minutos. Durante o ato, os jovens, que disseram não integrar o movimento estudantil nem partidos políticos, começaram a ser interpelados por estudantes contrários à cobertura do grafite. Segundo testemunhas, houve forte bate-boca e confusão por mais de 30 minutos, mas não a ponto de se agredirem fisicamente.

Seguranças da universidade foram chamados e acalmaram os ânimos. Foram anotados os dados pessoais dos dois estudantes. À noite, o Diretório Central dos Estudantes (DCE), os diretórios e centros acadêmicos da UFRGS emitiram nota de repúdio ao ato dos dois estudantes.

– Não é um simples ato de um aluno contra uma obra de arte, mas é a manifestação de um grupo de estudantes conservadores que não toleram o questionamento do papel da universidade – avaliou o coordenador-geral do DCE, Rodolfo Mohr.

Ato de ontem foi repudiado por autoridades da UFRGS

Posição de repúdio também teve o secretário de Assuntos Estudantis, Angelo Ronaldo Pereira da Silva, que classificou o ato como “desnecessário”. Para ele, há assuntos mais importantes para serem motivos de discussão que a pintura de uma parede.

O autor do processo administrativo, Anderson Gonçalves, não se mostrou surpreso com a cobertura da inscrição. Para ele, foi uma resposta ao precedente aberto pela universidade quando não repreendeu os responsáveis.

O diretor do Instituto de Letras, Arcanjo Pedro Briggmann, que havia criticado o arquivamento do processo que isentou de punição os autores do grafite, também criticou a pintura mais recente:

– Eu repudio igualmente porque acho tão irregular quanto a primeira. Estão pintando um prédio público sem autorização. Vou pedir ao reitor uma verba especial para repintar a parede, mas é certo que em três dias vão pintar de novo.

Responsável pelo grafite que deu origem à mais nova polêmica na UFRGS, a estudante de Ciências Sociais Juliane da Costa Furno, 19 anos, não foi localizada por Zero Hora.

Fonte: Zero Hora


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